Arquivo da categoria ‘Filosofia’

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Any time at All

Outubro 26, 2009

O Presente não Existe

Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo – o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstracta. O presente não é um dado imediato da consciência.

Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: «Detém-te! És tão belo…!», como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo.

Jorge Luís Borges, in ‘Ensaio: O Tempo’

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Ticket To Ride

Junho 1, 2009

A História da Humanidade em Três Palavras
Felipe lembrou-se da história do Rei do Oriente que, desejando conhecer a história da humanidade, recebeu de um sábio quinhentos volumes; ocupado com negócios de Estado, pediu-lhe que a condensasse. Ao cabo de vinte anos, o sábio voltou e a sua história ocupava agora apenas cinquenta volumes; mas o rei, já velho demais para ler tantos livros volumosos, pediu-lhe que a fosse abreviar mais uma vez. Passaram-se de novo vinte anos, e o sábio, velho e encanecido, trouxe um único volume com os conhecimentos que o rei procurara; este, porém, estava deitado no seu leito de morte, nem tinha mais tempo de ler sequer aquilo. Aí o sábio deu-lhe a história da humanidade numa única linha: “Nasceram, sofreram, morreram”.
Somerset Maugham, in “A Servidão Humana”
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Como não entende de ser valente Ele não sabe ser mais viril Ele não sabe não, viu? Às vezes dá como um frio É o mundo que anda hostil

Março 20, 2009

Saber Desfrutar Todos os Tempos


Nós mostramo-nos ingratos em relação ao que nos foi dado por esperarmos sempre no futuro, como se o futuro (na hipótese de lá chegarmos) não se transformasse rapidamente em passado. Quem goza apenas do presente não sabe dar o correcto valor aos benefícios da existência; quer o futuro quer o passado nos podem proporcionar satisfação, o primeiro pela expectativa, o segundo pela recordação; só que enquanto um é incerto e pode não se realizar, o outro nunca pode deixar de ter acontecido. Que loucura é esta que nos faz não dar importância ao que temos de mais certo? Mostremo-nos satisfeitos por tudo o que nos foi dado gozar, a não ser que o nosso espírito seja um cesto roto onde o que entra por um lado vai logo sair pelo outro!
Séneca, in ‘Cartas a Lucílio’
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How Your Heart Is Wired

Janeiro 4, 2009

Da arte de ter um Blog

Em da ousadia de ter um blog falo do fazer este blog surgido de uma simples idéia: guardar certos diálogos e passagens, capazes de despertar a parte não revelada das manifestações ocasionais do ser. Esta assertiva, apenas trata de uma parte do revelado, mas não do sentir que isso desperta.

Poder guardar as sensações estéticas do tipo quando se vê um filme, ou ouve uma boa música é poder recordar o que valeu a pena. Quando digo sensações estéticas, trato das coisas que faz sentir alguém mais vivo e querer abraçar o mundo. Tal qual como ao ver um filme inspirador, como The Curious Case of Benjamin Button, ou poder escutar a trilha sonora da vida tocando.

Afinal de contas a vida em si mesma não tem trilha sonora, mas podemos colocar para tocar músicas nos momentos vividos. Igual quando vi um comercial do Bradesco ou da Ford tratando do “inovar” e do “novo” respectivamente. Ter a possibilidade de expressar o sentir despertado e guardar em um lugar para recordar, além da memória, é um privilégio.

Romântico por demais, não? Pois, vale a pena ter sempre um jeitinho para estar conectado com as coisas boas, e que fazem valer a pena. Não se prender apenas as expectativas, passar a bola no meio de suas pernas. Colocar em prática esta idéiasignifica desejar menos, que coisas boas sejam provenientes de reações ou ações dos outros e aconteçam tal qual se espera.

Digo isso, pois percebo a passividade em esperar e se realmente se quer algo simplesmente “faça”, seja de que jeito for. Se for desengonçado aprecie a espontaneidade. Se for certeiro vibre pelo acerto. Se for da forma errada aprenda.

Como é bom fazer um lugar onde se possa desfrutar de leituras confirmatórias do que se faz acreditar. Melhor dizendo como Maria do Carmo Tavares de Miranda em uma reportagem do Jornal do Comércio de 4 de janeiro de 2008, ao ser questionada sobre as leituras de Heidegger e as influências na sua religião:

“Na verdade, minha fé só foi confirmada com as leituras que fiz na vida.”

Ela, não é apenas uma senhora qualquer, é uma Heideggeriana que conheceu Martin Heidegger. Teve o privilégio de presenciar seus seminários. Ler Heidegger e se identificar com o que ele escreve tem esse efeito nas pessoas.

A sensação de confirmação não se resume apenas pelo senso de adequação dos significados providos por sua obra, vai além. Melhor dizendo transcende (ultrapassa) as expectativas, pois no confirmar há uma fortificação do que se acredita e pode fazer acontecer, em suma, trata da fé.

Sem dúvida, com Heidegger aprendi a colocar manifesto os caracteres sub-reptícios do discurso de alguns.

Sem dúvida este é meu melhor motivo para citar tantas vezes Heidegger neste blog. Não só (con)firmar passos ao longo do caminho trilhado e das descobertas do dia a dia, mas também poder compartilhar e saber expressar isso. É a partir do expressar que se pode passear entre vários mundos, cada pessoa é um mundo, cada experiência pode ser capaz de mudá-lo.

A despretensão e o bom humor em lidar com tudo isso pode levar a uma descontração quebrando a seriedade de certos aspectos do viver. Nada melhor do que ter bom humor, como conteúdo para encarar tudo e todos a sua volta apresentado-se contrários e resistentes.

Afinal de contas, ter conteúdo importa, sobretudo, não para impressionar, mas para ampliar novos horizontes. Conversar com pessoas que possuem pontos de vista diferentes pode acrescentar algo, desde que não haja intransigência é sempre bem vindo.

Talvez, este espaço, em que me sirvo de reflexões, não reflita uma organização emocional ou financeira, enquanto sou um relez concurseiro. Entretanto, há pelo menos um luzir da imprevisibilidade das minhas circunstâncias. Sobretudo, pautada na espontaneidade das minhas concepções, abertas para novas experiências e formas de pensar. Servindo sempre para expandir o horizonte da arte que chamo de vida retratada neste blog.

Postado ao som de Bell X1 – How Your Heart is Wired


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Time is on my side, Yes it is…

Dezembro 30, 2008

Um homem como todos os demais, incapaz de parar o tempo. O curioso caso de Benjamin Button é a história de um viajante sobre as pessoas e lugares que ele encontra ao longo do seu caminho, os amores, as perdas, as buscas da alegria da vida, das suas tristezas e da morte dos que estão a sua volta.

Sobretudo, o conto versa sobre o que realmente dura além do tempo? Nada dura para sempre. Mas o que importa na vida tem sua intensidade e seu momento. A idéia do filme é genial. Criar um ser humano já nascido velho. Em sua infância Benjamin desfruta de toda compreensão da experiência e dos erros dos que possuem mais vivência. E a medida que o tempo vai caminhando, há um rejuvenescimento do personagem. No final da vida, ao em vez de lamentar não ter vivido tudo que podia, poder de fato realizar a experiência vivida com a força da juventude.

Toda essa originalidade subverte a idéia da frase que me faz ter a angústia do tempo e do reconhecimento de quão limitado sou: “Se a juventude soubesse, se a velhice pudesse” (Henri Estienne). A mudança ocorre na partícula se, ao extirpar os limites da incapacidade humana. Seja em que função sintática for condicional, apassivadora, subordinativa, ou não a frase sem esta angústia deixa a compreensão mais agradável e a vontade para significar.

Sem esse “se” a frase ganha uma nova sintaxe. A idéia do filme faz do “se” o sentir do jogo da linguagem do ser. Como no Teatro Mágico: “Sintaxe a vontade” perante o tempo vivido. Há no filme uma metáfora viva criadora de seu próprio significado confortador, no melhor estilo de Paul Ricoeur.

A metáfora da juventude vivida sem sua inexperiência, mas com sua garra de sempre poder expandir e vivenciar novos horizontes, depois da passagem do tempo. É como ter mais um Ás na manga para enganar o tempo, não só se restringindo à ter filhos e poder fazer deles algo melhor do que fomos. É poder cantar Amor pra Recomeçar pensando que o cedo não se resumi a um início:

Eu te desejo
Não parar tão cedo
Pois, toda idade tem
Prazer e medo…
Se no filme No Country for Oldmen (Onde os fracos não tem vez) o tempo foi revelado na arte revelando a perseguição inautêntica perante o ser humano. The Curious Case of Benjamin Button é a forma mais ilustrativa do que consta em Tempo e Ser de Martin Heidegger: “Ser é tempo”. A história desvela o quão importante é reconhecer e respeitar o próprio tempo. Não é apenas dizer tudo tem seu tempo. Dizer isto, resume-se a nomear o tempo e nada mais.

Em Tempo e Ser, Heidegger diz:

Nomeamos o tempo, quando dizemos: “Cada coisa tem seu tempo”. Isso quer dizer: cada coisa, que sempre é a seu tempo, cada ente vem e vai em tempo certo e permanece por algum tempo durante o tempo que lhe é dado por parte. Cada coisa tem seu tempo.”

A história faz o sentir do tempo de oportunidades legadas pela vida. É dizer, o tempo do kairós. O filme tem um trecho de grande significação. Como Benjamin não se permitiu acompanhar a história de sua filha, deixou para ela o mais importante aprendizado obtido desde a época de seu nascimento.

A sua existência ensina o fazer perceber o que realmente importa na vida. O valer a pena não pode ser conciliado com o tempo de Cronos. Pois, as oportunidades sempre se pautam em um acontecer do kairós. Ser quem realmente se quer ser. Não importa apenas ser no interior de sua personalidade, mas sim externar isso de modo a reconhecer e agir como tal.

O filme revela nunca ser tarde para começar novos projetos deixando as tristezas em uma agenda que não se abre mais. Importa ter mais energia e amor pelo feitos vividos, do que se preocupar com contigências. É possível a cada experiência vivida de tempos em tempos se possa mudar o que se acredita, mas há o livre arbítrio para permanecer igual. A verdade é que diante de assuntos da vida não há tantas regras quanto se imagina. Talvez, regras mesmo sejam importante para a convivência, mas não para o viver.

A grande mensagem do filme aborda a preocupação tão constante em alguns, a perda de tempo. Nunca se perde tanto quando dedica-se a algo que deu errado. O tempo é um dos bens mais preciosos do ser humano. Mesmo assim, até mesmo na sua perda que haja a possibilidade de fazer e dar o melhor de si mesmo. Talvez, esta seja a grande diferença a ser feita para dar intensidade e relevo as marcas deixadas pelo tempo. Como Vinícius de Moraes em “soneto do amor”: Mas que seja infinito enquanto dure. Neste caso que seja intenso para marcar.

(The Curious Case of Benjamin Button)

For what´s worth it is never to late, or in my case to early
Be who ever you wanna be
There´s no time limit start whatever you want
You can change or stay the same
There are no rules to this thing
You can make the best of waste time
I hope you make the best of it
I hope you see things that startle you
I hope you feel things that you never felt before
I hope meet people with different point of view
I hope you live a life you proud of
if you find that you´re not, i hope you have strength to start all over again…

Para o que vale a pena nunca é tarde demais, ou no meu caso cedo
Seja quem você quiser ser
Não há um limite no tempo para começar o que você quer
Você pode mudar ou permanecer o mesmo
Não há regras para isso
Você pode fazer o melhor da perda do tempo
Eu espero que você faça o melhor disso
Eu espero que você veja coisas que te surpreendam
Eu espero que você sinta coisas que você nunca sentiu antes
EU espero que você conheça pessoas com diferentes pontos de vista
Eu espero que você viva uma vida que te orgulhe
E se você descobrir que não, espero que você tenha forças para começar tudo denovo…

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This time, this time, Turning white and senses dire…

Dezembro 21, 2008

Ensaio Sobre a Cegueira (BlindNess)

I dont wanna know what you look like…
And how can we know which other.
I know that part inside of you with no name
and thats what we “are”, right ?!?!?

Eu não quero saber como você se parece…
E como poderemos nos conhecer.
Eu conheço aquela parte dentro de você sem nome
E isto é o que nós “somos”, certo ?!

O que realmente importa ver?
Ao som de: Beirut – My Family’s Role In The World Revolution

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At night it was the bright of the moon with me Time is just floating away Oh rainy day, come ’round But i love when you come over to the house I love it when you come ’round to my house…

Novembro 24, 2008

In The Midnight Hour.

Quando você é criança, a noite é assustadora

porque há monstros escondidos embaixo da cama.

Quando você cresce, os monstros são diferentes.

Dúvida.

Solidão.

Arrependimento.

Embora, seja mais velho e mais inteligente,

ainda se acha com medo do escuro.

(…)

Dormir.

É a coisa mais fácil de fazer. Você apenas…

Fecha os olhos.

Mas, para muitos de nós…

O sono parece estar fora de alcance.

Queremos, mas não sabemos como conseguir.

Mas quando enfrentamos nossos demônios,

enfrentamos nossos medos…

E recorremos ao outro por ajuda…

A noite não é tão assustadora, porque…

Percebemos que não estamos sozinhos, no escuro.

De tempos em tempos somos obrigados a decidir nossa vida. Escolhemos nossos amores, nossos amigos, a respectiva profissão e o que iremos fazer pelos próximos anos. Hoje ouvi a seguinte frase: “Não é fácil decidir a vida.”

De forma alguma o é. Pois, a vida trata de dar as suas voltas, e cada decisão tomada implica em levar prós e contras, escolher caminhos dos quais nem sempre se é como se imaginou que fosse. Nos vemos enfrentando dúvidas, arrependimentos por decisões tomadas e como se não bastasse ninguém pode decidir a vida de outra pessoa apenas estar ao lado para dar suporte. Ao tomar decisões tomamos sozinhos, somos nós mesmos que iremos enfrentar as consequências.

Dúvidas ao tomar decisões existe e sempre existirá. O que não pode acontecer em hipótese alguma é o caos instituir sua existência. Pois, o caos convidará a dúvida para dentro de tudo que se acredita e se pode fazer lutar. Durante estes dias, não existe monstro maior do que este. Duvidar que algo vai dar certo é natural ninguém possui o dom da predicação e da adivinhação. Mas ninguém pode perder o poder de reagir, de lutar e ter fé. Sem isso não há como sair do inferno das dúvidas.

Algumas vezes batemos de frente com essa luta sem saber que caminho tomar. Alguns não amadurecem, continuam a fazer escolhas inconsequentes das quais qualquer lógica é incapaz de aferir um significado plausível diante de uma compreensão mudana. Ou se conseguiram fazem de tudo para retomar o caminho de quando ainda não tinha tanta experiência. e responsabilidades, mas querem trazer consigo as conquistas propiciadas pela experiência. Alterna-se entre a vivência da independência com suas responsabilidades e o início dos 20 e poucos anos de total pouca responsabilidade, duas fases que nãos e coadunam e não permitem interferência uma da outra. Não é fácil deixar esta fase de transição por tudo que ela representa em suas possibilidades.

Os medos da infância se parecem em muito com o a fase adulta só que com uma nova roupagem. Não mudam em nada. Fernando Anitelli é muito feliz quando diz na música “EU não sei na verdade quem eu sou”: Velhinhos são crianças nascidas faz tempo. Só porque nosso sistema de recompensas neural na fase adulta já não é tão grande quanto na infância, o que coloca tudo numa nova perspectiva, não significa que os nossas possibilidades, em lidar com o que é humano, mudaram.

Como concurseiro tenho aprendido muito com as possibilidades. Cada prova é uma prova. Ricas em possibilidades para deixar os velhos monstros para trás. Cada dia de prova é uma experiência única durante as 12h do dia enfrento a maioria dos meus demônios que me assolam durante toda a preparação. O mais curioso é que anseio por tudo isso.

Na verdade cada noite é rica em possibilidades. Digo a noite, não por haver silêncio, ou render mais. Mas sim, pois no amanhecer que anuncia o dia ao iluminar a vida, as relações nela presente,
revela as escolhas feitas, as falhas naquele plano que parecia ser imbatível e até aonde tudo isso foi. E por incrível que pareça a única coisa que realmente arrefece este embate é uma boa noite de sono. Descansados se tem força para enfrentar novos desafios, sobretudo as quebras nas expectativas nos planos que foram traçados durante a noite.

Problema mesmo, é quando o dia não é suficiente para conter suas próprias preocupações. Sem pedir licença invade o meio da noite, o único momento em que se pode sentir que todas as coisas são possíveis. De fato dormir é algo tão simples, mas quando suas preocupações te tiram a segurança conquistada e deixa sua própria casa as coisas ficam realmente difíceis. O sono parece estar fora de alcance e promove sempre um embate entre o que realmente importa na hora de conseguir decidir a vida.

Talvez, por tudo isso seja muito difícil decidir a vida. Mas, hoje é uma nova noite cheia de possibilidades. Quem sabe, se não é o momento em que sendo tudo possível se possa ser como se é e reconhecer-se como tal.
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Keep me in mind

Novembro 11, 2008

Sócrates: Você sabe, Fedro, esta é a singularidade do escrever, que o torna verdadeiramente análogo ao pintar. As obras de um pintor mostram-se a nós como se estivessem vivas; mas, se as questionamos, elas mantêm o mais altivo silêncio. O mesmo se dá com as palavras escritas: parecem falar conosco como se fossem inteligentes, mas, se lhes perguntamos qualquer coisa com respeito ao que dizem, por desejarmos ser instruídos, elas continuam para sempre a nos dizer exactamente a mesma coisa. E, uma vez que algo foi escrito, a composição, seja qual for, espalha-se por toda a parte, caindo em mãos não só dos que a compreendem mas também dos que não têm relação alguma com ela; não sabe como se dirigir às pessoas certas e não se dirigir às erradas. E, quando é maltratada ou injustamente ultrajada, precisa sempre que o seu pai lhe venha em socorro, sendo incapaz de se defender ou de cuidar de si própria.

Platão, in ‘Fedro’
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In the days before you were young, we used to sit in the morning sun we used turn the radio on, what happen?

Setembro 29, 2008

Ser ou não Ser

Hamlet: Ser ou não ser, essa é a questão: será mais nobre suportar na mente as flechadas da trágica fortuna, ou tomar armas contra um mar de obstáculos e, enfrentando-os, vencer? Morrer — dormir, nada mais; e dizer que pelo sono se findam as dores, como os mil abalos inerentes à carne — é a conclusão que devemos buscar. Morrer — dormir; dormir, talvez sonhar — eis o problema: pois os sonhos que vierem nesse sono de morte, uma vez livres deste invólucro mortal, fazem cismar. Esse é o motivo que prolonga a desdita desta vida.

William Shakespeare, in “Hamlet”

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You ain’t ever seen The way to find your dream Forget what’s within within Cos who you’ve been you’ve been

Agosto 31, 2008

O Sentido de Possibilidade

Poderia definir-se o sentido de possibilidade como aquela capacidade de pensar tudo aquilo que também poderia ser e de não dar mais importância, àquilo que é, do que àquilo que não é. Como se vê, as consequências desta disposição criadora podem ser notáveis; infelizmente, não é raro que façam aparecer como falso aquilo que as pessoas admiram e como lícito aquilo que elas proíbem, ou então as duas coisas como sendo indiferentes. Esses homens do possível vivem, como se costuma dizer, numa trama mais subtil, numa teia de névoa, fantasia, sonhos e conjuntivos; se uma criança mostra tendências destas, acaba-se firmemente com elas, e diz-se-lhe que tais pessoas são visionários, sonhadores, fracos, gente que tudo julga saber melhor e em tudo põe defeito.

Quando se quer elogiar estes loucos, chama-se-lhes também idealistas, mas é claro que com isso só se alude à sua natureza débil, incapaz de compreender a realidade, ou que a evita por melancolia, uma natureza na qual a falta do sentido de realidade é um verdadeiro defeito. O possível, porém, não abarca apenas os sonhos dos neurasténicos, mas também os desígnios ainda adormecidos de Deus. Uma experiência possível ou uma verdade possível não são iguais a uma experiência real e uma verdade real menos o valor da sua realidade, mas têm, pelo menos do ponto de vista dos seus partidários, algo de muito divino, um fogo, um ímpeto, uma vontade de construir e um utopismo consciente que não teme a realidade, antes vê nela uma missão e uma invenção.

Ao fim e ao cabo, a Terra não é assim tão velha, e não se pode dizer que o seu estado alguma vez tenha sido verdadeiramente interessante. Se quisermos então distinguir de uma maneira fácil aqueles que se guiam pelo sentido do real dos que se guiam pelo sentido do possível, basta pensarmos numa determinada soma de dinheiro. Por exemplo: tudo aquilo que mil marcos contêm, efectivamente, de possibilidades, está de facto neles, quer os possuamos quer não; o facto de o senhor Eu ou o senhor Tu os possuírem não lhes acrescenta nada, como nada acrescentaria a uma rosa ou a uma mulher. Mas, dizem os do sentido de realidade, um louco faz com eles um pé-de-meia, enquanto um homem prático os põe a trabalhar para si; até à beleza de uma mulher aquele que a possui acrescenta ou retira alguma coisa.

É a realidade que desperta a possibilidade, e nada seria mais errado do que negar isso. E no entanto, no cômputo global ou em média, as possibilidades serão sempre as mesmas até aparecer alguém para quem uma coisa real não é mais importante do que uma imaginária. É ele que dará às novas possibilidades o seu sentido e a sua finalidade, é ele que as desperta.

Robert Musil, in ‘O Homem sem Qualidades’