Arquivo da categoria ‘Frases’

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Any time at All

Outubro 26, 2009

O Presente não Existe

Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo – o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos em extensão, não existe; temos que imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstracta. O presente não é um dado imediato da consciência.

Sentimo-nos deslizar pelo tempo, isto é, podemos pensar que passamos do futuro para o passado, ou do passado para o futuro, mas não há um momento em que possamos dizer ao tempo: «Detém-te! És tão belo…!», como dizia Goethe. O presente não se detém. Não poderíamos imaginar um presente puro; seria nulo. O presente contém sempre uma partícula de passado e uma partícula de futuro, e parece que isso é necessário ao tempo.

Jorge Luís Borges, in ‘Ensaio: O Tempo’

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The magical mystery tour is waiting to take you away

Outubro 21, 2009

O Segredo dos Seres e do Mundo
Sentia-me à vontade em tudo, isso é verdade, mas ao mesmo tempo nada me satisfazia. Cada alegria fazia-me desejar outra. Ia de festa em festa. Acontecia-me dançar noites a fio, cada vez mais louco com os seres e com a vida. Por vezes, já bastante tarde, nessas noites em que a dança, o álcool leve, o meu desenfreamento, o violento abandono de cada qual, me lançavam para um arroubo ao mesmo tempo lasso e pleno, parecia-me, no extremo da fadiga e no lapso de um segundo, compreender, enfim, o segredo dos seres e do mundo. Mas a fadiga desaparecia no dia seguinte e, com ela, o segredo; e eu atirava-me outra vez.
Albert Camus, in “A Queda”
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Look for the girl with the sun in her eyes, and she’s gone Lucy in the sky with diamonds

Outubro 21, 2009

Flávia Suassuna

Neste mundão pragmático e materialista, é bom ouvir falar da arte como acervo viável para o compreender e o estar no mundo. Não é para todo mundo o entendimento dessa ferramenta irrenunciável e substantiva para lidar com a pluralidade e a singularidade, ao mesmo tempo – tarefa que nosso tempo simplificador e uniformizador parece ter desistido de cumprir.

http://fsuassuna.blogspot.com/2009/09/segunda-de-primeira.html

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The lights go off, THE LIGHTS GO ON

Setembro 20, 2009

Hora de tirar a poeira do blog. Ando sumido o velho sonho de ser um procurador, mas a verdade é que eu já sou um, um procurador da vida em busca de sinestesias, idiossincrasias e melodias…

Todo ano desde 2004 há um final de semana que supera todas as expectativas e se torna um dos melhores do ano… O que ocorreu ?!?! Apenas fui a um dos melhores shows da minha vida… Parece que eu estou exagerando ?!?! De maneira nenhuma, o show de Beirut foi uma catarse impregnada de sinestesias inusitadas e inesperadas… Eu confesso que eu fui sozinho, sem conhecer ninguém. Confesso, no entanto, que conheci mais gente em uma noite do que todas as outras… Todos com um único desejo ver BEIRUT…

Até chegar Beirut, muiiiiiiiiitos passos foram dados… ouvimos o JAM da Silva pernambucano da minha terra.

Depois, veio o segundo melhor momento do Coquetel Molot2009 primeira noite, a Tiê entrou no palco, com uma musicalidade de gente grande e conhecida mundialmente, não é a toa que o Toquinho a chamou pra sair em turnê… Seus versos impressionam:

Já faz um tempo que eu queria te escrever um som. Passado o passado, acho que eu mesma esqueci o tom.

E te peço, me perdoa, me desculpa que eu nao fui sua namorada, pois fiquei atordoada, faltou o ar, faltou o ar.


E pelo visto, vou te inserir na minha paisagem e você vai me ensinar as suas verdades e se pensar, a gente já queria tudo isso desde o inicio
Alô, eu sei, se chega até aqui, tão no limite não dá mais pra desistir. Amor, porque eu te chamo assim, se com certeza você nem lembra de mim.


E eu confesso, só me resta a vida interia. Só me resta a vida em mi maior e lá.

Poxa, “só me resta a vida em meu eu maior(mi) e lá” fora na eterna (des)aventura entre o certo e o incerto que a vida nos reserva. Soa como John lennon: “vida é o que acontece enquanto fazemos planos”. Não adianta planejar tanto, sem dúvida é preciso saber o que se quer, mas quando esse querer vai acontecer !?!?! Dou um doce pra quem souber…

O melhor show que eu ja fui, sem nada programado, sozinho, livre, leve e solto. Chegando lá as melhores companhias que pude encontrar não imaginaria nunca.

Consegui chegar perto do Zach, arrumei uma camisa com os autógrafos da banda, ainda registrei o momento…Putz, dizer que valeu a pena não chega nem à terça parte do mínimo que se pode imaginar. Eles tocaram Scenic World, só faltou Mimizan, East Harlem que diga-se de passagem eu gritei o show inteiro da terceira fileira e toda vez que ele ouvia o Zach fazia um ar de riso…

Como também teve o momento apoteótico do show com Elephant Gun com todos batendo palma e cantando, o tecladista até se emocionou chorando… Confesso que Capitú plantou a dúvida em quem leu e viu Dom Casmurro, mas nem Machado de Assis poderia imaginar que a música de uma de suas personagens mais populares proveria em sua releitura “moderna” fosse capaz de suscitar tamanha catarse…

Sem falar que o sábado foi regado a um primoroso jantar na melhor companhia dos meus entes queridos e logo após uma visita à Hepburn, com direito a rever pessoas que conheci, em suma, na mais fina companhia como diria Chico Buarque…

De tempos em tempos a vida sorri pra você é numa dessas oportunidades que se tem de sorrir de volta, não se pode desperdiçar a chance de um belo diálogo… Como disse no título as luzes se apagaram, mas elas estão acesas denovo que iluminem aventuras e coisas boas dessa vez…

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The Ribs of a Broken Umbrella

Fevereiro 11, 2009

Muitas das grandes realizações do mundo foram feitas por homens cansados e desanimados que continuaram trabalhando.

(Sorte do Orkut)

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In my good times There were always golden rocks to throw

Janeiro 6, 2009

Ou se tem chuva e não se tem sol

ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel

ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa estar

ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,

ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…

e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda qual é o melhor:

se é isto ou aquilo.

Cecília Meireles

Da simples vontade em decidir e realizar as escolhas certas. Ninguém se pode furtar a tal momento. A incapacidade em escolher nos leva a paralisia. Sejam contigências, consequências imprevisíveis é preciso saber. Que bom que há a dúvida!! “A dúvida é um elemento fundamental no avanço da ciência, pois sem ela ainda acreditaríamos na quadratura da terra.” (Paulo de Bessa Antunes)

Postado ao som de Beirut – Postcards from Italy

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How Your Heart Is Wired

Janeiro 4, 2009

Da arte de ter um Blog

Em da ousadia de ter um blog falo do fazer este blog surgido de uma simples idéia: guardar certos diálogos e passagens, capazes de despertar a parte não revelada das manifestações ocasionais do ser. Esta assertiva, apenas trata de uma parte do revelado, mas não do sentir que isso desperta.

Poder guardar as sensações estéticas do tipo quando se vê um filme, ou ouve uma boa música é poder recordar o que valeu a pena. Quando digo sensações estéticas, trato das coisas que faz sentir alguém mais vivo e querer abraçar o mundo. Tal qual como ao ver um filme inspirador, como The Curious Case of Benjamin Button, ou poder escutar a trilha sonora da vida tocando.

Afinal de contas a vida em si mesma não tem trilha sonora, mas podemos colocar para tocar músicas nos momentos vividos. Igual quando vi um comercial do Bradesco ou da Ford tratando do “inovar” e do “novo” respectivamente. Ter a possibilidade de expressar o sentir despertado e guardar em um lugar para recordar, além da memória, é um privilégio.

Romântico por demais, não? Pois, vale a pena ter sempre um jeitinho para estar conectado com as coisas boas, e que fazem valer a pena. Não se prender apenas as expectativas, passar a bola no meio de suas pernas. Colocar em prática esta idéiasignifica desejar menos, que coisas boas sejam provenientes de reações ou ações dos outros e aconteçam tal qual se espera.

Digo isso, pois percebo a passividade em esperar e se realmente se quer algo simplesmente “faça”, seja de que jeito for. Se for desengonçado aprecie a espontaneidade. Se for certeiro vibre pelo acerto. Se for da forma errada aprenda.

Como é bom fazer um lugar onde se possa desfrutar de leituras confirmatórias do que se faz acreditar. Melhor dizendo como Maria do Carmo Tavares de Miranda em uma reportagem do Jornal do Comércio de 4 de janeiro de 2008, ao ser questionada sobre as leituras de Heidegger e as influências na sua religião:

“Na verdade, minha fé só foi confirmada com as leituras que fiz na vida.”

Ela, não é apenas uma senhora qualquer, é uma Heideggeriana que conheceu Martin Heidegger. Teve o privilégio de presenciar seus seminários. Ler Heidegger e se identificar com o que ele escreve tem esse efeito nas pessoas.

A sensação de confirmação não se resume apenas pelo senso de adequação dos significados providos por sua obra, vai além. Melhor dizendo transcende (ultrapassa) as expectativas, pois no confirmar há uma fortificação do que se acredita e pode fazer acontecer, em suma, trata da fé.

Sem dúvida, com Heidegger aprendi a colocar manifesto os caracteres sub-reptícios do discurso de alguns.

Sem dúvida este é meu melhor motivo para citar tantas vezes Heidegger neste blog. Não só (con)firmar passos ao longo do caminho trilhado e das descobertas do dia a dia, mas também poder compartilhar e saber expressar isso. É a partir do expressar que se pode passear entre vários mundos, cada pessoa é um mundo, cada experiência pode ser capaz de mudá-lo.

A despretensão e o bom humor em lidar com tudo isso pode levar a uma descontração quebrando a seriedade de certos aspectos do viver. Nada melhor do que ter bom humor, como conteúdo para encarar tudo e todos a sua volta apresentado-se contrários e resistentes.

Afinal de contas, ter conteúdo importa, sobretudo, não para impressionar, mas para ampliar novos horizontes. Conversar com pessoas que possuem pontos de vista diferentes pode acrescentar algo, desde que não haja intransigência é sempre bem vindo.

Talvez, este espaço, em que me sirvo de reflexões, não reflita uma organização emocional ou financeira, enquanto sou um relez concurseiro. Entretanto, há pelo menos um luzir da imprevisibilidade das minhas circunstâncias. Sobretudo, pautada na espontaneidade das minhas concepções, abertas para novas experiências e formas de pensar. Servindo sempre para expandir o horizonte da arte que chamo de vida retratada neste blog.

Postado ao som de Bell X1 – How Your Heart is Wired


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Time is on my side, Yes it is…

Dezembro 30, 2008

Um homem como todos os demais, incapaz de parar o tempo. O curioso caso de Benjamin Button é a história de um viajante sobre as pessoas e lugares que ele encontra ao longo do seu caminho, os amores, as perdas, as buscas da alegria da vida, das suas tristezas e da morte dos que estão a sua volta.

Sobretudo, o conto versa sobre o que realmente dura além do tempo? Nada dura para sempre. Mas o que importa na vida tem sua intensidade e seu momento. A idéia do filme é genial. Criar um ser humano já nascido velho. Em sua infância Benjamin desfruta de toda compreensão da experiência e dos erros dos que possuem mais vivência. E a medida que o tempo vai caminhando, há um rejuvenescimento do personagem. No final da vida, ao em vez de lamentar não ter vivido tudo que podia, poder de fato realizar a experiência vivida com a força da juventude.

Toda essa originalidade subverte a idéia da frase que me faz ter a angústia do tempo e do reconhecimento de quão limitado sou: “Se a juventude soubesse, se a velhice pudesse” (Henri Estienne). A mudança ocorre na partícula se, ao extirpar os limites da incapacidade humana. Seja em que função sintática for condicional, apassivadora, subordinativa, ou não a frase sem esta angústia deixa a compreensão mais agradável e a vontade para significar.

Sem esse “se” a frase ganha uma nova sintaxe. A idéia do filme faz do “se” o sentir do jogo da linguagem do ser. Como no Teatro Mágico: “Sintaxe a vontade” perante o tempo vivido. Há no filme uma metáfora viva criadora de seu próprio significado confortador, no melhor estilo de Paul Ricoeur.

A metáfora da juventude vivida sem sua inexperiência, mas com sua garra de sempre poder expandir e vivenciar novos horizontes, depois da passagem do tempo. É como ter mais um Ás na manga para enganar o tempo, não só se restringindo à ter filhos e poder fazer deles algo melhor do que fomos. É poder cantar Amor pra Recomeçar pensando que o cedo não se resumi a um início:

Eu te desejo
Não parar tão cedo
Pois, toda idade tem
Prazer e medo…
Se no filme No Country for Oldmen (Onde os fracos não tem vez) o tempo foi revelado na arte revelando a perseguição inautêntica perante o ser humano. The Curious Case of Benjamin Button é a forma mais ilustrativa do que consta em Tempo e Ser de Martin Heidegger: “Ser é tempo”. A história desvela o quão importante é reconhecer e respeitar o próprio tempo. Não é apenas dizer tudo tem seu tempo. Dizer isto, resume-se a nomear o tempo e nada mais.

Em Tempo e Ser, Heidegger diz:

Nomeamos o tempo, quando dizemos: “Cada coisa tem seu tempo”. Isso quer dizer: cada coisa, que sempre é a seu tempo, cada ente vem e vai em tempo certo e permanece por algum tempo durante o tempo que lhe é dado por parte. Cada coisa tem seu tempo.”

A história faz o sentir do tempo de oportunidades legadas pela vida. É dizer, o tempo do kairós. O filme tem um trecho de grande significação. Como Benjamin não se permitiu acompanhar a história de sua filha, deixou para ela o mais importante aprendizado obtido desde a época de seu nascimento.

A sua existência ensina o fazer perceber o que realmente importa na vida. O valer a pena não pode ser conciliado com o tempo de Cronos. Pois, as oportunidades sempre se pautam em um acontecer do kairós. Ser quem realmente se quer ser. Não importa apenas ser no interior de sua personalidade, mas sim externar isso de modo a reconhecer e agir como tal.

O filme revela nunca ser tarde para começar novos projetos deixando as tristezas em uma agenda que não se abre mais. Importa ter mais energia e amor pelo feitos vividos, do que se preocupar com contigências. É possível a cada experiência vivida de tempos em tempos se possa mudar o que se acredita, mas há o livre arbítrio para permanecer igual. A verdade é que diante de assuntos da vida não há tantas regras quanto se imagina. Talvez, regras mesmo sejam importante para a convivência, mas não para o viver.

A grande mensagem do filme aborda a preocupação tão constante em alguns, a perda de tempo. Nunca se perde tanto quando dedica-se a algo que deu errado. O tempo é um dos bens mais preciosos do ser humano. Mesmo assim, até mesmo na sua perda que haja a possibilidade de fazer e dar o melhor de si mesmo. Talvez, esta seja a grande diferença a ser feita para dar intensidade e relevo as marcas deixadas pelo tempo. Como Vinícius de Moraes em “soneto do amor”: Mas que seja infinito enquanto dure. Neste caso que seja intenso para marcar.

(The Curious Case of Benjamin Button)

For what´s worth it is never to late, or in my case to early
Be who ever you wanna be
There´s no time limit start whatever you want
You can change or stay the same
There are no rules to this thing
You can make the best of waste time
I hope you make the best of it
I hope you see things that startle you
I hope you feel things that you never felt before
I hope meet people with different point of view
I hope you live a life you proud of
if you find that you´re not, i hope you have strength to start all over again…

Para o que vale a pena nunca é tarde demais, ou no meu caso cedo
Seja quem você quiser ser
Não há um limite no tempo para começar o que você quer
Você pode mudar ou permanecer o mesmo
Não há regras para isso
Você pode fazer o melhor da perda do tempo
Eu espero que você faça o melhor disso
Eu espero que você veja coisas que te surpreendam
Eu espero que você sinta coisas que você nunca sentiu antes
EU espero que você conheça pessoas com diferentes pontos de vista
Eu espero que você viva uma vida que te orgulhe
E se você descobrir que não, espero que você tenha forças para começar tudo denovo…

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Alêm do que se vê…

Dezembro 27, 2008

“…alguma coisa nos faz diferente. Nascemos com os olhos acostumados ao azul das águas. Temos um corpo que anseia pelo abraço do mar e, um pulmão que aceita grandes privações de ar apenas para prolongar a nossa vida no mundo azul…”
(Jacques-Yves Cousteau)
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Was a long and dark December From the rooftops I remember There was snow, white snow Clearly I remember from the windows They were watching while we froze Down below

Dezembro 16, 2008

Há letras inúteis e letras dispensáveis, dizia ele. Que serviço diverso prestam o d e o t? Têm quase o mesmo som. O mesmo digo do b e do p, o mesmo do s, do c e do z, o mesmo do k e do g, etc. São trapalhices caligráficas. Veja os algarismos: não há dois que façam o mesmo ofício; 4 é 4, e 7 é 7. E admire a beleza com que um 4 e um 7 formam esta coisa que se exprime por 11. Agora dobre 11 e terá 22; multiplique por igual número, dá 484, e assim por diante. Mas onde a perfeição é maior é no emprego do zero. O valor do zero é, em si mesmo, nada; mas o ofício deste sinal negativo é justamente aumentar. Um 5 sozinho é um 5; ponha-lhe dois 00, é 500. Assim, o que não vale nada faz valer muito, coisa que não fazem as letras dobradas, pois eu tanto aprovo com um p como com dois pp.

Dom Casmurro (Capítulo XCIV: Idéias Aritméticas) por Machado de Assis