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Think for Yourself!

fevereiro 16, 2008

Is there anybody going to listen to my story, All about the girl who came to stay?


Há alguém que irá ouvir a minha história? É, apenas, uma pergunta que convida para despertar o interesse de algo a ser dito. Eu sei e compreendo que os Beatles foram os caras certos no tempo certo. Ninguém conseguiu fazer melhor o que eles fizeram. Contudo, como pode ainda hoje suas canções serem tão bem ordenadas a ponto de se fazer um filme como Across the Universe despertando uma catarse?

Estou a falar de músicas feitas em 1960, já passamos do ano 2000 e os Beatles ainda não foram esquecidos, pelo contrário se mantém atuais. Across the Universe trata não apenas de um filme qualquer, nem de um conjunto de video-clipes. Mas sim, uma forma de unir a beleza da poesia à vida do Homem em sua facticidade. Esta compreendida como a situação característica da existência humana que, lançada ao mundo, está submetida às injunções e necessidades dos fatos. Através da música se dá a sensibilidade de um momento vivido. E isto é feito durante quase todo o filme.

Meu objetivo é simplesmente achar alguma conexão de sentido entre as músicas dos Beatles e o que disse um filósofo chamado Martin Heidegger. Sem prejudicar o sentido da poesia. Analisarei os versos que acho que dão pra contar alguma história e ao mesmo tempo fazer um paralelo com o filme Across the Universe. Vou por partes, pois a tarefa é longa. Muitas músicas para comentar e muitos conceitos para explicar. Mas, não é impossível, “There’s nothing you can do that can’t be done. It´s easy” (All you need is love)

Bem, esse verso é da música Girl (Is there anybody going to listen to my story, All about the girl who came to stay?) feita contra os valores ortodoxos de uma tradição. Ser contrário a algo não deixa de ser uma forma de (re)pensar as coisas, quebrar paradigmas, ou até mesmo adquirir uma nova percepção dos fatos sem cair em lugares comuns. Para realizar essa forma de (re)pensar me valho de um verbo. O verbo “SER”. No filme, Girl serve de convite para contar os momentos bons que Jude guardou na memória ao lado de Lucy na América.

Mas, eu falava do verbo ser. Na história do verbo “Ser”, tudo começa, quando Heráclito disse: há ser e não o nada? Pronto, estava feito o primeiro Homem que percebeu as imbricações de tal verbo.

O verbo “ser” exprime ação pura como tal, que os demais verbos/ações pressupõem e significam, uma possibilidade de participação sempre relativa a um sujeito, que atua consumando. Pode empregar-se como verbo entitativo ou copulativo, significando no primeiro caso o mesmo que existir e, no segundo caso, a relação de pertença lógica entre um sujeito e um predicado, ocorrendo sobretudo nos juízos de talidade(talidade significa as coisas tais como realmente são), em que se afirma ou nega certas propriedades de um sujeito qualquer.

Que viajem, não !? O ser pode ter o uso predicativo quando se quer atribuir uma qualidade a um ente. Por exemplo, Eu sou/era sagaz. Pode ter o sentindo existencial denotando existência, enquanto realidade vivida. “Penso, Logo sou”. E ainda tem a função auxiliar tal qual usamos nas línguas inglesa e alemã.

Heidegger sempre refere-se ao ser nos sentidos predicativo e existencial. O ser, argumenta Heidegger, é muitas vezes considerado como a mais vaga das abstrações, o aspecto mais geral de tudo que é. Observa Heidegger, que embora a palavra ser seja indeterminada quanto ao seu significado, ela sempre é por nós compreendida de maneira determinada. Se assim não fosse, nunca poderíamos dizer e saber se algo “é” ou “não é”.

O ser se mostra sempre como algo determinado, ele se mostra sempre através do ente, embora nele não se esgote. Perceba, Ele é inteligente. Com a observação de Heidegger, ser na frase “ele é feio”, o verbo ser sozinho deixaria a frase indeterminada “Ele é”, mas por ter um complemento é compreendido quando sabemos o significado de feio. O ente é tudo aquilo que de que falamos, pensamos, aquilo com respeito ao qual nos comportamos desta ou daquela maneira; ente é também o que nos mesmos somos, e o modo como o somos.

Para Heidegger, a história da metafísica ocidental é a história do encobrimento do ser, isto é, da busca de um sentido fixo para o ser. Este encobrimento do ser manifesta-se no fato de que, para a metafísica, o ser é uma noção óbvia que não tem necessidade de ulteriores explicações. Isto equivale a afirmar que o ser é uma noção extremamente vaga que fica indeterminada.

Nunca se pode dizer que o “ser” é. Seria a própria entificação dele, e além do mais uma tautologia sem precedentes. Heidegger encontra um novo modo para dizer isso: “Ao mesmo tempo, emprega-se o “es gibt” (se dá), para evitar, por enquanto, a locução: “O Ser é”; pois, o É se diz comumente daquilo que é. E isso chamamos de ente.

Ora, o Ser não é o ente. Por isso, se diz o É, sem ulteriores explicações, do Ser, então facilmente se entende o Ser como um ente, à maneira dos entes conhecidos, que como causa produzem efeito ou como efeito são produzidos.” Percebe-se que o ser é insuscetível de conceituação.

Bem, até agora se disse muito e quase nada sobre o ser. Verbo idiossincrático por vida.

Contudo, para perceber o ser precisa-se mudar alguns paradigmas, até mesmo a forma de ler, e significados usuais das palavras. Heidegger sempre cria novos significados para as palavras de nosso cotidiano. Entendê-lo, é também estar aberto as essas mudanças. No filme este aviso vem na canção With a Little Help from my Friends, logo após um leve sarcasmo sobre o amor a primeira vista.

Would you believe in a love at first sight
Yes, I’m certain that it happens all the time
What do you see when you turn out the light
I can’t tell you but I know it’s mine,
 

De fato, o que você vê quando apaga a luz ? O ser só se manifesta em clareiras, no Ereignis. O ser está sempre em constante velamento e desvelamento. Esse (des)velamento faz uso da fenomelogia. A fenomenolgoa analisa os fenômenos ao propiciar em um fazer o que se mostra em si Mesmo, tal como se mostra a partir De si próprio. Essa é a definição de fenomenologia dada por Heidegger.

Me interrogo, neste momento, se não estou sendo por demais fantasioso. Como uma música da década de 60 ainda pode servir de exemplo para pensar o ser? Durante um tempo pensei que estaria esticando demais o sentido da música. Mas, não é bem assim. Na poesia também se pode pensar o mais digno de ser pensado. Então, lembrei de um trecho de uma conferência de Heidegger que dizia: Qué quiere decir pensar ?

“Es la hija del cielo y de la tierra. Mnemosyne, como amada de Zeus, en nueve noches se convierte en la madre de las musas. El juego y la danza, el canto y el poema, pertenecen al seno de Mnemosyne, a la memoria. Es evidente que esta palabra es aquí el nombre de algo más que aquella facultad de la que habla la Psicología, la facultad de guardar lo pasado en la representación. La palabra memoria piensa en lo pensado. Pero el nombre de la madre de las musas no quiere decir «memoria» como un pensamiento cualquiera, referido a cualquier cosa pensable. Memoria aquí es la coligación del pensar que permanece reunido en vistas a aquello que de antemano ya está pensado porque quiere siempre ser tomado en consideración antes que cualquier otra cosa. Memoria es la coligación de la conmemoración de aquello-que-hay-que-tomar-en-consideración antes que todo lo demás. Esta coligación alberga cabe sí y oculta en sí aquello en lo que hay que pensar siempre de antemano; en relación con todo aquello que esencia y se exhorta como esenciando y habiendo esenciado. Memoria, como coligada conmemoración de lo que está por-pensar, es la fuente del poetizar. Según esto la esencia de la poesía descansa en el pensar. Esto es lo que nos dice el mito, es decir, la leyenda. Su decir se llama lo más antiguo, no sólo porque, según el cómputo del tiempo, es el primero sino porque, por su esencia, es, desde siempre y para siempre, lo más digno de ser pensado.”

Jude se utilizou da memória no sentido da faculdade de guardar o passado na representação. Eu a utilizarei no sentido da co-ligação da co-memoração daquilo-que-há-que-tomar-em-consideração antes de todos os demais. E o que se deve considerar ante todos os demais? O ser. Antes de tudo e de todos se “é”. Antes da diferença do vermelho e do vinho, cores muito parecidas, primeiro se é vermelho, para depois diferenciar com o vinho.

Por isso Heidegger explica que a coligação mostra e oculta em si aquilo no que há que pensar sempre de antemão. Ele está a falar do ser, ainda mais quando Memória como co-ligada a co-memoração do que está por pensar é a fonte do poetizar. Sendo assim, a fonte da poesia reside no pensar. Tento dizer, que ao analisar o verso de With a little Help from my friends, penso o ser com a ajuda da poesia sem esgarçar o sentido do verso.

Faço isso, pois, tenho idéia de que a poesia e o pensar não são nunca a mesma coisa. Mas, podem dizer o mesmo de forma distinta. Desde que a poesia tenha sua altura, do ponto de vista significativo, e o pensar seja profundo, ao buscar suas raízes na origem das coisas. Talvez, esta seja a razão do filme Across the Universe ter chamado minha atenção. Algumas das músicas dos Beatles são marcantes na vida das pessoas. Por uma razão, bem simples, elas satisfazem o desejo de estar em sintonia com a compreensão da existência humana, a partir das influências e das necessidades do que se revela no tempo. Por isso, podem ser ordenadas a ponto de constituir uma temporalidade?

There will be an answer, let it be.

2 comentários

  1. Olá. Sou Marina, psicóloga Daseinsanalista, abordagem baseada no pensamento do filósofo Martin Heidegger, e por isso cheguei ao seu blog.Ainda não tive oportunidade de ler muitos posts mas gostei muito de como vc aproxima os Beatles à filosofia. A título de curiosidade, pois talvez vc não saiba, gostaria de compartilhar contigo que havia numa das paredes da cabana onde Heidegger escreveu a maior parte de sua obra, um quadro com a letra da Inner Light, do George Harrison, que primeiro foi lançada como o Lado B do então compacto/hoje single que trazia no lado A Lady Madonna. Há também uma versão recente produzida pelo Jeff Lynne para o encontro Concert for George, em homenagem a ele, gravado em CD e DVD ( recomendo que ouça e assista se ainda não o fez). Enfim, parabéns pelo blog, assim que tiver um tempinho vou pesquisar mais sobre seus escritos, ok? Tudo de bom🙂 . Marina


    • Desde já, fico grato por apreciar alguns dos meus pensamentos, ainda mais sobre Martin Heidegger. E muito obrigado por compartilhar seu conhecimento sobre a música de George Harrison… não sabia deste detalhe…



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