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Djô Djô, nada pára, nada espera Djô Djô, que o destino assim quisera…

março 18, 2008

Onde os Fracos Não Tem Vez seria uma catarse? Um filme, aparentemente sem sentido, com diálogos que nos últimos 30 min dão uma idéia de serem jogados sem um devido contexto e, ainda assim, ganhar 4 estatuetas do Oscar. Tem alguma coisa errada, certo?

Bem, eu disse aparentemente. O filme, definitivamente, é incomum, abre a porta para entrada das raridades que não são encontradas em qualquer esquina. Seus diálogos revelam a condição humana de uma forma ímpar, o que faz despertar o melhor dos juízos estéticos em quem o interpreta.

Definitivamente, a arte custa a se manifestar. Leva tempo para ser percebida. O que dizer então do próprio Tempo ser revelado na arte. Esse é a grande história do filme. Toda história é pautada no Tempo que afronta o ser humano. É algo que nos impele a pensar de um modo não utilitarista, mas de uma forma a desvelar como isso atinge todas as pessoas se colocando na realidade delas.

Digo isso, pois acompanhar o matador, Anton Chigurth (Javier Bardem), em sua odisséia é fazer uma analogia ao titã Cronos. Este era o mais novo dos Titãs. Filho de Gaia, a Terra, e de Urano, o céu estrelado. Foi o único a escutar o pedido de sua mãe, quando Gaia, a fim de pôr termo à sua própria escravatura e à dos seus filhos, decidiu armá-lo para que ele vencesse. O mito diz que cada vez que Gaia tinha um filho, Urano o devolvia ao seu ventre. Cansada disto, Gaia tramou com seu filho Cronos. Ela fez de seu próprio seio uma pedra em forma de lâmina e a deu para Urano. Cronos esperou que Urano, seu pai, dormisse e o castrou.

Cronos em relação a existência representa o tempo mensurado como dias, meses e anos. É finito, metódico, controlado, igual para todos. É o tempo linear, que cobramos aos outros e do qual dizemos que «tempo é dinheiro». É o tempo do calendário, o tempo do relógio. Cronos era pai de Zeus. Como Cronos que destronou o pai, Zeus também o fez. Cronos fora alertado uma vez que um possível filho seu o destronaria por isso matava todos os seus filhos.

Anton Chigurth mata todos no filme, tal qual Cronos o fazia. Basta ver o rosto de Chigurth para perder a vida. Chigurth pode também ser compreendido como um retrato do esteriótipo da violência em que as pessoas reagem a um indivíduo mal caratista. Mesmo assim, tal situação ainda evoca o tempo. Mais uma vez: o Tempo mostra quem é quem.

No caminho da vida de um ser humano, o encontro com seu próprio Tempo e mal caratistas duassão coisas muito comuns. Quero dizer, o filme pode desvelar como a condição humana pode ser ora cruel em sua violência, ora igualitária por mostrar que todos têm que enfrentar a responsabilidade de seu próprio Tempo. Nisto reside a experiência estética do filme. Como pode diante de tais paradoxos haver uma beleza tão singular?

Sem dúvida, o filme é um daqueles objetos estéticos construídos para proporcionar à quem assiste uma experiência singular. Ele permite, assim como os objetos estéticos, a experiência do belo, do expressar, do sentir.

Em essência, a experiência estética faz vibrar nossos sentimentos, ou melhor, eles são tocados, despertados pelas formas do objeto e então vibram, dando-se a conhecer a nós mesmos. Como quando enfrente a um espelho, onde apreendemos nossa imagem e desvelamos a aparência face ao objeto estético, descobrimos aspectos da vida interior, vindo a conhecer melhor a nossa realidade. Como diria Neruda: “Amor é que nem espelho tem que ter REFLEXO”.

Esse reflexo é o que faz da perseguição entre Chigurth e Llewelyn Moss (Josh Brolin) tão emocionante. O Tempo cronológico atrás das coisas mundanas e fugazes. Grande parte da maioria está a correr atrás de algo antes que seja tarde sem respeitar nenhum princípio. Como ponto de equilíbrio está o Sheriff (Tommy Lee Jones) que sente o peso de seu próprio Tempo ao questionar o que está acontecendo com o mundo. Ao Sheriff cabe fazer a ponte entre o sentir dos efeitos do tempo Chigurth e as indagações do mundano Llewelyn.

No início do próprio filme ele questiona um jovem que tinha um único próposito matar alguém. Até mesmo na cena do café em que um subalterno seu acaba rindo de tanta desgraça estampada em um jornal. Pois, nesta cena o Sherriff presta sua solidariedade ao dizer que acontece o mesmo com ele. Tanta indiferença serve para mostrar a comodidade em aceitar como normal o que está invertido ou esquecido no mundo. Em outro momento conversando com outro xerife chega-se conclusão de que a desgraça do mundo atual são as drogas e o dinheiro. Todas esses diálogos fazem o Sheriff indagar pelo mundo.

Depois dessa conclusão, há o começo da parte mais significativa do filme, ou pelo menos aquela em que todos pensam não haver sentido algum. São os diálogos do filme que fazem toda uma diferença. O xerife também conversa com um velho em uma cadeira de rodas. A parte principal do diálogo começa assim:

Me disseram que você está largando o cargo
(…)
Aquele homem que atirou em você morreu na prisão.(xerife)
Em Angola, sim.
O que faria se ele fosse solto?(Xerife)
Ah, eu não sei. Nada. Não teria motivo.

Estou surpreso de ouvir você dizendo isso.(Xerife)

Enquanto você gasta seu tempo tentando retomar algo que foi tirado seu, há mais saindo pela porta.

Após algum tempo, você apenas coloca um torniquete, e pronto.

(…)
Loretta me disse que você está largando o cargo. Por que está fazendo isso?
Eu não sei.(Xerife)
Me sinto ultrapassado(Xerife)
Eu sempre pensei que, quando envelhecesse, Deus entraria na minha vida.ELE não entrou.E eu não o culpo.(Xerife)

Se eu fosse ele, teria a mesma opinião que ele tem de mim.(Xerife)
Você não sabe o que ele pensa.

(…)
O que você tem, não é nada novo.
As pessoas desse país são difíceis de lidar.

Você não pode parar o que está vindo.

Nada mais vai esperar por você.
É inútil. (Thats vanity)

O xerife claramente sente os efeitos do Tempo diante de sua vida. Questiona a partir da existência a responsabilidade de seus atos e pergunta por que Deus não entrou em sua vida? Ele faz menção ao existencialismo, pois:

“Dostoievski escreveu: «Se Deus não existisse, tudo seria permitido». Aí se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe, fica o homem, por conseguinte, abandonado, já que não encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada, não há desculpas para ele. Se, com efeito, a existência precede a essência, não será nunca possível referir uma explicação a uma natureza humana dada e imutável; por outras palavras, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade. Se, por outro lado, Deus não existe, não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento. Assim, não temos nem atrás de nós, nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores, justificações ou desculpas.” (Vergílio Ferreira, in ‘O Existencialismo é um Humanismo’)

Com relação ao tempo em sua existência Heidegger uma vez disse que não se podia afirmar o “que” o ser humano é, mas sim quem ele é. Quis dizer que a essência humana não acontece fora da existência. Nessa corrida contra o tempo da vida de alguns ele acaba por se perder diante de uma queda (Verfallen). Ocorre a queda devido a busca de algo não essencial a existência e sem valor em si mesmo, ou seja, banalidades . Por isso, enquanto se gasta o Tempo em retomar o que lhe foi tirado há mais saindo pela porta. Alguns dizem, para amenizar o desgaste dessa corrida, que as coisas só acontecem com o Tempo. Se não aconteceu é porque não tinha de ser.

Em Tempo e Ser, Heidegger diz:

Nomeamos o tempo, quando dizemos: “Cada coisa tem seu tempo”. Isso quer dizer: cada coisa, que sempre é a seu tempo, cada ente vem e vai em tempo certo e permanece por algum tempo durante o tempo que lhe é dado por parte. Cada coisa tem seu tempo.”

Em suma, não se diz “nada”, quando se afirma que as coisas só vão vir “no” ou “com” o tempo. É uma ilusão pensar que isso é uma grande descoberta, ou algo que serve de conforto a inquietudes. Quando se diz que as coisas não tinham de ser é para expressar uma visão conformista para perdedores.

Quando Ellis diz: que não se pode parar o que está vindo e nada mais vai esperar pelo Xerife significa o próprio Tempo reverenciando as mudanças trazidas pelo mesmo no que lhe é peculiar, o passageiro. E isto, não é nada novo, apenas se está dando nome ao tempo. Quando não se pensa o mais digno de ser pensado(o SER) o tempo se perde. O filme também é sobre esta corrida e o tempo que foi perdido em banalidades da modernidade que os valores que deveriam ser lembrados, mas são esquecidos.

Uma prova disso é Chigurth, quando decide a vida humana no cara e coroa. A vida vale mais do que uma moeda sendo jogada para o alto. Algumas vezes, sem nem deixar o oponente saber o que está em jogo. Como uma forma de acabar com tamanha banalidade, do comum já-desde-sempre-dito, a esposa de Llewelyn Moss (Josh Brolin) tenta fazer o assassino tempestivo resgatar os valores esquecidos que impedem de ver a tomada de responsabilidade por seus atos. Quando diz que quem escolhe é a própria pessoa:

Eu sabia que isto não tinha acabado.
Eu não tenho o dinheiro…

(…)
Você não tem motivos para me machucar.
Não(Chigurth)
Mas eu dei minha palavra(Chigurth)
Deu sua palava?
Ao seu marido.(Chigurth)
Isso não faz sentido.
Deu a sua palavra a ele que me mataria.
Seu marido teve a chance de salvá-la.(Chigurth)
Mas ele usou você para salvar a si próprio.(Chigurth)
Não foi assim.
Não, como você está dizendo.
Você não precisa fazer isso.
Todos sempre dizem a mesma coisa.(Chigurth)
O que eles dizem?

Eles dizem “você não precisa fazer isso”.

E Chigurth resolve jogar a moeda.

Isso é o melhor que eu posso fazer.(Chigurth)
Escolha.(Called) (Chigurth)

Eu sabia que você era louco quando o vi sentado aí.

Eu sabia exatamente o que me esperava.

Escolha.(Chigurth)

Não, Não vou escolher.

A moeda não decide nada.

É você.

Por último, vem o diálogo do sonho do Xerife, que tenta equilibrar a responsabilidade dos atos de uma vida construída a partir de um fazer pelas próprias mãos (Eigentlichkeit) e um mundo de desajustes. O xerife velho e aposentado compara seu pai, eternamente jovem, consigo mesmo e a procura de um ponto imutável no tempo onde possa segurar a sua vida diante de tudo que é passageiro.

(…)
Como durmiu?
Não sei. Tive sonhos.(Xerife)
Bem, você tem tempo para sonhar agora. Algo de interessante?
Sempre são para a parte interessada.(Xerife)
Ed Tom. Eu serei discreta.
Bem, foram dois. Com meu pai. Bem peculiar.(Xerife)
Estou mais velho agora e ele sempre teve 20 anos.
Então, de certa forma, ele é o mais jovem.
De qualquer forma, não lembro muito do primeiro, mas ele me encontrou na cidade e me deu algum dinheiro.
Acho que o perdi.
No segundo, era como se ambos tivéssemos voltado ao passado.
Eu estava a cavalo, andando pelas montanhas no meio da noite. Estava frio e havia neve no chão.
Ele me passou e continuou andando. Não disse nada. Apenas passou.
Estava enrolado em um cobertor e de cabeça baixa.
E quando ele passou, vi que carregava uma tocha, como se fazia na época.
Eu podia ver a luz dentro daquela tocha. TInha a cor da lua.
E, no sonho, eu sabia que ele iria adiante, e que queria fazer uma fogueira no meio daquela escuridão e daquele frio.
E eu sabia que, a qualquer momento que eu fosse lá, ele estaria lá.
E eu acordei.
(…)

O significado de passageiro está em Tempo em Ser, onde:

“A justaposição de Tempo e Ser contém, não obstante, a indicação para discutir o Tempo no que lhe é próprio, com o olhar dirigido para o que foi dito do ser. Ser significa presentar, presentificar, presença. Presença é a significação temporal do ser enquanto subsistência. Ou seja, presença é a significação do passageiro, o que passa no decurso do tempo enquanto consciência de si. Em suma, presença significa o constante permanecer, que se endereça ao homem, que o alcança e lhe é alcançado.”

Os sonhos mostram o Xerife na busca de algo subsistente a tantas mudanças e que perdure no tempo, seja no passado, ou no futuro. Em ambos não há a “presença”(o constante permanecer) do que ele procura. Mas, é no seu tempo presente enquanto ele toma consciência de si que encontra seu ponto de subsistência ajudando-o a manter seus valores e iluminar o caminho diante da perseguição entre o Tempo matador de Chigurth e o mundano de Llewelyn.

O filme é a catarse do Tempo. Aquele Tempo cronológico que se perde diante das coisas fugazes que apenas prejudicam o enquanto da tomada de consciência em si da condição humana. Em suma, impedem o ser humano de buscar sua ontologia e o seu querer vir a Ser. Enquanto não se deixar Ser o que alguém almeja na vida haverá um único problema: tudo na vida passa, mas os atrapalhos do passageiro deixam marcas que ficam na presença do Ser impossibilitado. Diante de tantos atrapalhos experenciados a única coisa que permanece é o ser humano tentando Ser refletido ou vibrar nas possibilidades de manter seus valores que formam as suas idiossincrasias em simplesmente SER.

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