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Let Love Open the Door

maio 19, 2008

 

 

Ouvi dizer que algumas coisas quando idealizadas são ótimas, mas quando de fato tornam-se realidade são simplesmente para muito além de espetaculares. Quero dizer o desejo por alguma coisa é tão forte que supera além de nossas expectativas, até mesmo o esquecimento. 

 

Em boa parte de nossa existência temos momentos bons para (re)lembrar, de fato é um privilégio poder guardá-los na memória. Nossas lembranças, na maioria das vezes, fazem ser o que somos, ou fomos, ou poderemos ser. Digo isso, pois a mémória é muito mais do que apenas uma capacidade de poder representar o passado vivenciado. 

 

Memória aqui é a coligação do pensar que permanece reunido em vista daquilo que de antemão já está pensado porque quer sempre ser tomado em consideração antes de que qualquer outra coisa. Memória é a coligação da co-memoração daquilo-que-há-que tomar-em-consideração antes de todas as demais coisas.  (Martin Heidegger:  Qué quiere decir pensar ?)

 

O que deve ser tomado em consideração antes de todas as demais coisas é o ser. Antes de tudo há ser (es gibt). O azul só se constitui como azul, pois ele antes de tudo “É” azul. Como também, Ser igual é diferente de ser, entende? Ser igual  refere-se a algo que não é a si próprio.  O ser propõe uma relação tendo como referencial a forma mais particular de se relacionar, ele mesmo. 

 

Quero dizer, antes de haver uma representação do passado, primeiro vem o que somos para nós próprios. A partir desta identidade, é possível ser único. E quando não há lembranças de quem você é? Se já é difícil para todos descobrir quem se é, em circunstâncias corriqueiras, imagina sempre esquecer todo este processo de forma involuntária? Afinal de contas, somos humanos e erramos na maioria das vezes e para podermos aprender precisamos de nossas lembranças, sem isso não evoluímos.

 

Em um dos melhores diálogos que já tive com pessoas com grande experiência na vida foi este:

-Oi vó, como está a senhora, lembra de mim?

-Não.

-Você me conheceu quando nasci, me viu quando criança. Sou R.N.

-OOOiiii meu Neto. Como você está mudado. 

-Eu também estou…O tempo passou estou velha e tão esquecida. 

-Veja o lado bom vovó, dentro de você só existem lembranças de coisas boas. 

-Ninguém guarda na lembrança por muito tempo coisas ruins.   

-Além do mais a Senhora não está velha. Apenas possui marcas do tempo…

-E estas marcas te dão o que ninguém pode tirar da Senhora. Respeito e Consideração.

-Olhe a sua volta. Ninguém possui mais tempo de existência do que a Senhora aqui.

-Perceba também o que a Senhora conseguiu construir. Estão aqui, todos os seus filhos e netos prestigiando a senhora.

-Todos encaminhados na vida e com as suas lições ensinando aos mais jovens.

-É verdade meu Neto.

-Posso fazer uma pergunta a senhora? Pode sim.

-A senhora se lembra do seu grande amor?

-Meu D… sempre está comigo no meu peito.(Ela puxa uma medalinha, com um Santinho que possuía o mesmo nome de seu amor)

 

Esse diálogo ocorreu com uma pessoa que quero muito bem e infelizmente possui Alzheimer, mas foi incapaz de esquecer seu grande amor construído ao longo de uma vida. É raro um casal sobreviver ao tempo e depois com o amor construído ultrapassar uma distância considerável. 

 

Temos vários tipos de memória como a muscular para as coisas cotidianas do dia. Emocional para as coisas que simplesmente seu corpo sabe, como quem de fato você amou durante sua vida inteira. Mas há  no recôndito do espírito do homem, onde se acham suas experiências mais marcantes, a memória do que constitui o seu ser. Felizmente, neste lugar, a lembrança é mais forte que qualquer esquecimento, guardando sempre  na memória as pessoas amadas, ou quem se amou, não importando qualquer adversidade ao recordar sua vida. Para mim ver isso é espetacular.

 

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